#58 - Exercício Trinta e Sete
às vezes, basta uma hora de escrita
— O que eu tenho para dizer? — pensou em voz alta Alice.
— Preciso escrever, Aldo, mas simplesmente não sei o que tenho a dizer.
Pegou o gato no colo enquanto falava, olhando em seus olhos como se esperasse que o bichano fosse lhe entregar a resposta para todas as suas angústias. Mas Aldo era só um gato. E os gatos nunca tiveram compromisso com as crises existenciais dos outros.
— Já sei o que podemos fazer...
Embalou o pequeno e o levou para o sofá. Aldo deslizou até encontrar seu lugar na almofada, como em uma coreografia ensaiada. Alice seguiu até a estante.
— Vejamos... onde está...
Percorreu as lombadas com os olhos, apertando-os na velha teimosia de quem precisava de óculos, mas preferia culpar a distância.
— Achei.
Retirou um pequeno livro azul.
The 3 A.M. Epiphany.
Um livro de exercícios incomuns de escrita. Presente — ou recomendação, Alice já não lembrava — de um grande amigo, também escritor, que atravessara o oceano em busca de outra vida e acabara deixando a ela um mapa para lugares que só existiam por dentro.
Gostava daquele azul. Aquele azul específico.
Havia dias em que lhe parecia o céu. Em outros, parecia o mar. Hoje, seria uma porta.
Folheou algumas páginas.
Escreva uma história em que ninguém possa usar a letra “e”.
Outra.
Descreva uma pessoa sem aparência física.
Outra.
Faça um personagem mentir durante toda a conversa.
Outra.
Escreva uma cena inteira apenas com sons.
Havia algo de cruel em um livro que oferecia centenas de possibilidades e obrigava Alice a escolher apenas uma. Para ela, toda escolha carregava um pequeno luto.
Ideias nunca lhe faltavam. Boas maneiras, sim. Não havia decência nem civilidade na sua imaginação. Cada nova ideia chegava como os fogos da virada em Copacabana: mal uma explodia, outra já riscava o céu.
Era por isso que voltava ao livro. Para conter o próprio Réveillon.
Levou-o para a mesa diante da janela. Antes de abri-lo em uma página aleatória e delegar seu exercício ao acaso, observou o prédio da frente.
Um homem, talvez com cinquenta e poucos anos, surgiu na cozinha segurando uma xícara de café. Não fazia nada além de observar o pôr do sol. Ainda assim, Alice teve a impressão de que ele cumpria alguma tarefa importante.
No apartamento acima, uma família jantava às seis da tarde.
Ela imaginou que tipo de dia obrigava alguém a jantar tão cedo. Imaginou quem lavaria aquela louça. Se recolheria os pratos sem dizer uma palavra, se alguém dormiria brigado naquela noite ou se só estavam cansados...
Baixou os olhos e viu pela primeira vez o exercício escolhido pelos seus dedos, guiados ao acaso e ao destino.
Escreva um conto sobre o que lhe aconteceu nos últimos cinco minutos.
Fitou as palavras à tinta por um instante.
Depois, a janela. O sol já não estava mais ali.
Aldo, agora completamente dissolvido no sofá.
Abriu o notebook e, sem perceber, atravessou outra porta. De um azul mais frio e claro.
Na tela, a matéria se dissolve. A tinta já não existe. Desaparecem o peso das páginas, o toque do papel, o cheiro do livro.
Ainda assim, Alice escreve sua primeira frase:
— O que eu tenho para dizer? — pensou em voz alta Alice.


